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Livros & Viagens

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01
Jul16

O meu filho gosta de armas de brincar

Marco Neves

O meu filho gosta de armas de brincar — Considerações muito sérias sobre os EUA — Como aproveitar o Brexit para fazer bem à nossa carteira — Uma teoria sobre o riso

 

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Isto não faria sentido se contasse apenas segredos pouco arriscados, que não provocam a indignação em ninguém.

 

Pois bem, aqui vai um segredo levemente polémico: não me importo muito que o meu filho brinque com pistolas de brincar. Sim, eu sei, pode não ser o brinquedo mais saudável do mundo, mas ele e os primos divertem-se imenso a correr por aí aos tiros falsos. E o certo é que ele também gosta de livros e até de cozinhas. E de espadas. 

 

Os miúdos têm esta tendência irritante de não gostar apenas dos brinquedos que os adultos aprovam.

 

E estamos a falar de armas destas:

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Sim: Nerfs. Isto é material mais a dar para o Paintball do que para os tiroteios. E eu sei que assusta ver as crianças aos tiros a dizer "estás morto", mas pensem nisto assim: mau, mau é quando há um país em que os brinquedos são armas a sério. Sim, estou a falar dos E.U.A., país de que gosto bastante, mas que tem esse terrível defeito de ter inscrito na sua constituição a posse de armas como um direito fundamental.

 

Não seria bom enviar um carregamento destas armas fofinhas para os Estados Unidos, lançá-las pelo país fora, tentando convencê-los que os seus Pais Fundadores, quando escreveram a famosa e perigosa Segunda Emenda, estavam a pensar em armas destas e não em metralhadoras capazes de matar dezenas de pessoas em poucos segundos? Sim, eu sei: é mentira. Mas não era bom que os americanos tivessem todos Nerfs em casa em vez de armas que matam mesmo a sério?

 

Pois bem: isto tudo para vos revelar um segundo segredo. O meu filho pediu, com jeitinho, uma Nerf igual à dos primos. Devia ter dito que não? Naquele momento apeteceu-me dizer que sim. O brinquedo talvez não fosse para a idade dele, mas os primos já andam desesperados: sempre que ele vai lá a casa, traz uma destas e fica todo contente. Nem usa as balas de espuma: finge que dispara, sem disparar. Ora, em nome da paz doméstica entre primos, achei melhor que ele também tivesse alguma coisa para emprestar. Pois bem: venha de lá uma Nerf.

 

Agora, mais um segredo inconfessável. Como os ingleses deram um enxerto de porrada à libra em forma de referendo, a verdade é que pude comprar o brinquedo na Amazon a bom preço. Ah, pois é, eu que fiquei em choque com o resultado do referendo, não deixei de ter o diabinho na cabeça a dizer para aproveitar o disparate britânico para fazer compras. Sim, é maquievélico. Mas, vá, admitam, enquanto o pau vem e vai, folgam as costas, que é como quem diz, enquanto não vier aí o estalo do Brexit, aproveitemos para fazer compras mais baratas.

 

E ainda um terceiro segredo: eu estava mais entusiasmado com a compra do que ele. Fiquei à espera feito criança e quando a encomenda chegou comecei logo a brincar. Logo eu, que nunca gostei destas coisas quando era puto. A minha mãe diz-me que às vezes achava estranho eu brincar tão pouco (a minha desculpa costuma ser esta: eu brincava muito, mas pela imaginação). Pois a minha mãe deve estar agora mais descansada: é verdade que já tenho idade para ter juízo. Mas brinco! E até brinco com o meu filho e com os primos com espadas e pistolas. 

 

Há uns tempos, li não sei onde que há por aí uma teoria sobre a função do riso que diz mais ou menos isto: o riso começou como forma de os pais e os filhos, quando fingem que estão a lutar, mostrarem que está tudo bem, que é brincadeira, que ninguém se está a aleijar: se alguém parar de rir, alguma coisa não está bem.

 

Não faço ideia se a teoria tem algum fundo de verdade ou não. Devia investigar, mas agora não me apetece, que vou almoçar. Mas é bem verdade que o meu filho ri-se que nem um perdido quando luta comigo, nessas brincadeiras de sofá em que os pais e os filhos se põem ao murro e às cócegas.. E também se ri quando anda atrás de mim com uma nerf. Ou com uma espada. Já com as cozinhas de brincar, põe-se sério a fingir que está a lavar a loiça ou a cozinhar. E quando joga à bola comigo também não se ri assim tanto: fica sério, concentrado em ganhar ao desajeitado do pai. Ganha-me mais vezes do que tenho coragem de admitir.

 

Nós somos bichos muito estranhos, não haja dúvida!