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Livros & Viagens

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30
Jun16

Primeiro segredo: a cor das paredes do meu quarto

Marco Neves

 

 

Onde revelo a cor das paredes do meu quarto — Confesso-me viciado nisto dos blogues — Explico para que quero este segundo blogue.censorship-610101_640.jpg

 

Bem-vindos a um blogue sobre segredos. Os meus segredos. Pois, mas que interessam os meus segredos — pergunta o leitor e pergunta muito bem. Então se não sou famoso, se nem sequer assino com o meu nome, porque haveria alguém de querer saber os meus segredos?

 

Ora, é verdade. E até mando mais lenha para a fogueira: não só os meus segredos não interessam a ninguém, como nem sequer tenho uma revalação escabrosa que compense essa falta de interesse na minha pessoa.

 

Bem, se tivesse uma revelação escabrosa, também não a diria logo assim de chofre. Iria calar-me muito bem caladinho e, daqui a uns tempos, quando já aqui viessem muitos leitores habituados a pequenitos segredos do dia-a-dia, pumba, grande revelação! Afinal a culpa daquilo do BES é minha! 

 

Que fique o leitor com a pulga atrás da orelha: se calhar até tenho essa tal grande revelação. Ou não. E se tiver, pode dar-se o caso de, um dia, a revelar por aqui. Ou não.

 

Já agora, fiquem a saber um segredo: tenho pouco jeito para manter o anonimato. Rapidamente os meus amigos descobrem quem sou. Aliás, um dia criei um blogue que queria mesmo anónimo e uma amiga minha descobriu-me a careca porque fotografei um livro no meu quarto. Ora, o meu quarto está pintado dum improvável roxo (C’est vrai! Eis o segundo segredo!).

 

Pois ela pensou: só pode ser ele! Perguntou-me e eu respirei fundo, ganhei forças para esconder a minha identidade, pensei que era fácil mentir, e disse: «sou eu, sou».

 

E, depois, este blogue tem no título a palavra «segredos». Isto vai ser um sinal indesmentível para os meus amigos que o autor sou eu. Porquê? Não vos posso dizer. É segredo. Mas um dia conto. Os meus amigos sabem do que estou a falar.

 

Aliás, os meus amigos estão neste momento a abanar a cabeça: mas que raio tem ele na cabeça? E alguns mais preocupados devem estar a pensar em fazer aquela coisa americana da «intervenção»: chegam-se ao pé de mim e dizem: «Ó M, pára lá com isso, se faz favor. Pára de criar blogues!» E eu digo: «Mas são só dois, já abandonei tudo o resto. São só dois...» E eles: «Já são dois a mais!» E eu choro e abraçamo-nos e eu nunca mais venho aqui.

 

Não. Claro que não vai acontecer nada disto, porque somos portugueses e como tal eles vão rir-se e dizem-me: «porra, que tu não páras com isso dos blogues» enquanto encolhem os ombros e passam à frente.

 

Aliás, por cá, os amigos não fazem intervenções. Se um amigo se porta mal, nós portamo-nos mal com ele. Aliás, portamo-nos ainda pior e gozamos com o amigo por ser totó.

 

Ora aí está a razão por que me apeteceu criar este outro blogue: deixar a franga à solta no que toca a generalizações. Os amigos são todos assim. Os portugueses são todos assado. Ai, os ingleses: são todos uns assim ou assado (e no fim ganha o assim). No outro blogue (que não posso revelar qual é) tento ser cuidadoso, pensar como deve ser. É bom, faz falta. Mas cansa. Às vezes gosto de dizer outras coisas, sair dos mesmos temas, contar uns segredos, dizer disparates (não que não os diga também no outro blogue, mas por lá é sem querer).

 

É isso: apetece-me, às vezes, deixar as palavras correr ao sabor do vento e falar de coisas banais ou menos banais, mais pessoais, que tenham interesse ou nem por isso, mas que sejam minhas. Por isso, aqui ficam os meus segredos...